Rio de Janeiro, 1945: «Amália, aquela rapariga nervosa como um vime que não nasceu para o fado porque foi o fado que nasceu para ela»

1944- Numa aldeia portuguesa
Amália Rodrigues com a bailarina russa Tamara Grigorieva, protagonista do «Ballet Russe» e a Orquestra Portuguesa de Guitarras de Fernando de Freitas no Casino de Copacabana, no quadro «Uma Aldeia Portuguesa», Novembro de 1944. Fotografia: cortesia de Noel Cunha

 

«E Amália? Amália, aquela rapariga nervosa como um vime que não nasceu para o fado porque foi o fado que nasceu para ela, também nos deixou atraída por um contrato principesco com que Rádio Globo lhe acenou do Rio. Foi e triunfou. A breve trecho, Amália era um ídolo do Brasil, tal como o tinha sido já de Portugal.
A suavidade da sua voz doce e maleável, e a elevação poética dos seus fados sem mortes violentas, sem paixões inconfessáveis, sem misérias sórdidas, sem mães desnaturadas ou filhos malfeitores, conquistaram irresistivelmente os radiófilos brasileiros, num triunfo tão mais valioso quanto é certo que os “ouvintes di lá” estão habituados a escutarem e a apreciarem os maiores valores da rádio mundial.
Eles acharam que Amália era diferente. Estranha e inexplicavelmente diferente. Porque, inclusivamente, nunca os brasileiros tinham visto uma intérprete do fado assim tão bonita, elegante e apetecível. Houve quem erguesse hinos vibrantes aos seus olhos negros e sonhadores, a esses lábios rubros como papoilas e lindos como se houvessem saído da paleta mágica de um pintor enamorado, a essa melodia suave que se expandia comunicativamente dão seu rosto de linhas irregulares, sensitivas e perturbantes.
E Amália viveu momentos de insuperável euforia artística, ela que já conhecia o sabor maravilhoso das palmas estonteantes, ela que já se habituara a dominar multidões com aquela facilidade própria dos ídolos que souberam construir insensivelmente o pedestal da sua própria glória.

1944 Brasil Casino Copacabana (M N Teatro)
Casino de Copacabana, Novembro de 1944. Foto Avilez, Rio de Janeiro. Museu Nacional do Teatro e da Dança, Lisboa.

Mas a rádio não bastava para aureolar o triunfo clamoroso da alma do fado. Por isso os brasileiros a puderam aplaudir (e com que calor o fizeram!) no teatro João Caetano, ao lado de Beatriz Costa e Oscarito, os dois monopolizadores do favoritismo carioca. Depois, Amália voltou a Portugal. Mas foi por bem pouco tempo. Mal nos restaram oportunidades para a abraçar, para lhe escutar gulosamente meia dúzia escassa de apressadas confidências, para mais uma vez vibrar com a sua voz inconfundível que deu ao fado uma euritmia nova, plena de desconhecidas nuances.
Prometeu escrever. E, claro, não cumpriu a promessa. Um só telegrama a noticiar a chegada:
“Cá estou outra vez Brasil. Ainda estou mesmo sítio. Depois escrevo.”
Até hoje. É certo que Amália nos enviou fotografias e uns recortes de vários periódicos cariocas com referências à sua actuação na revista “Boa Nova”, mas isso não bastou para que pudéssemos fazer uma ideia segura a respeito da sua nova temporada no Brasil. E até nós foram chegando notícias ora desconcertantes, ora entusiásticas, mas todas inconsequentes ou desligadas. Pode afirmar-se, contudo, por notícias que recebemos, que a “Boa Nova” não agradou. A revista constituía uma “charge” excessivamente cortante à vida carioca, e o público amuou com semelhante falta de cortesia. Amadeu do Vale deve ter sentido o peso angustioso do fracasso. Mas Amália estava lá para os salvar de apuros. E na “Rosa Cantadeira”, a peça que em seguida foi levada à cena, o público reconciliou-se […].»

1940's Vida Mundial

Vida Mundial Ilustrada, Lisboa, n.º 238, 6 de Dezembro de 1945. «Amália Rodrigues no Brasil» [capa] / «Notícias da Amália! A vedeta do fado que triunfou no Brasil!».

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