Brasil, Rio de Janeiro, 1944

1944- Numa aldeia portuguesa
Amália Rodrigues no quadro Uma Aldeia Portuguesa, Rio de Janeiro, Casino de Copacabana, sala Golden Room, 1944

 

«Grill Room. AMÁLIA RODRIGUES NUM NOVO QUADRO – Não há nada que melhor defina a expressão artística de um povo do que a sua música. Não é que se possa, na hierarquia das artes, dar supremacia a esta ou aquela. Mas a música possue maior influência sobre o espírito popular, pela facilidade de sua divulgação, e compreensão. Bem visto que estou me referindo à música do povo. As valsas vienenses ao tempo de Strauss viviam na alma do povo. Em qualquer instante vestiam-se de ritmos na voz de algum boémio seresteiro. Mesmo nos salões mais chics elas eram cantadas e dançadas. O tango é outro exemplo de “fisionomia popular”. Imagine-se o argentino cantando sambas e frevos em dias de carnaval, é um absurdo tão grande quanto o de dançar o carioca, nessa época, nos seus cordões animados, o foz lento ou os fados portugueses. Não há dúvida de que a música não é propriamente um hábito, é uma atitude do espírito popular, e se deriva de suas emoções artísticas e sociais.. Assim: o carioca canta o samba por determinação de sua natureza social e por causa de suas manifestações artísticas, do seu “tónus” espiritual. Do mesmo modo o português canta o fado e o argentino o tango. Esse “clima social” do qual se originam as manifestações artísticas do povo é que é de difícil verificação, por derivar-se de múltiplos e complexos factores, alguns facilmente identificáveis, outros mais difíceis e obscuros. Assim, parece-me que a música é um corolário da raça. Não só a música, a arte, de um modo geral. Por isso, a apresentação de Amália Rodrigues no Casino Copacabana despertou enorme interesse entre os que acompanham a vida artística da cidade. Trata-se de uma cantora portuguesa, de raros predicados, de nome famoso no “broadcasting” d’além-mar, e que iria, com a sua arte mostrar ao público do Rio uma característico da alma de Portugal. Foi o bastante para encher, todasas noites, o “golden-room”. Amália Rodrigues, de facto, correspondeu, cantando com emoção e saudade os mais lindos fados de compositores antigos e modernos de sua terra. Foi uma magnífica demonstração de que Portugal vive a sua música popular, com intensidade e emoção. E também de que possui valores das dimensões de uma Amália Rodrigues. Agora, ao que consegui saber, Stukar, o notável “expert” copacabanense, está criando um novo quadro para Amália Rodrigues. Dessa vez ela cantará músicas espanholas [de] que possue um repertório dos mais delicados», por Mariarte.

A Manhã, Rio de Janeiro, 17 de Novembro de 1944, p. 5.

 

Fotografia: cortesia de Noel Cunha.

 

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